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17 de Fevereiro de 2020
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    Lars Grael encerra ciclo de palestras na XV Conferência Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais

    Superar limites foi o tema da última palestra da XV Conferência Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais, proferida pelo renomado esportista Lars Grael. Durante as duas horas que falou para uma plateia de aproximadamente 400 pessoas, entre elas autoridades como o deputado Kennedy Nunes (PP), que representou o Parlamento catarinense, o vice-presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Artagão Júnior, representando o presidente da Unale, Alencar da Silveira Júnior, Grael ressaltou os principais desafios durante sua trajetória de sucesso e seu drama particular ocasionado por um acidente marítimo em 1988.

    Com uma ampla história de vida e dono de grandes conquistas como medalhas olímpicas, títulos nacionais e sulamericanos, Grael é considerado um dos maiores nomes do esporte nacional por priorizar em sua carreira o treinamento, a dedicação e a superação para enfrentar dificuldades encontradas em diferentes competições. “Desde o meu ingresso no esporte foram muitas etapas até chegar à competição profissional. Superando dificuldades relacionadas à falta de apoio financeiro observei que o Brasil, considerado país do futebol, possui uma lacuna a ser preenchida: o incentivo ao esporte de base”, destacou.

    Para o esportista, o investimento financeiro é o principal incentivo para qualquer esporte, uma vez que ele promove estruturas e possibilita as competições. Acreditando que o esporte anda de mãos dadas com a educação, Grael explicou aos legisladores que o esporte de base, se bem trabalhado, contribui para educação e, possivelmente, forma futuros atletas bem sucedidos. “Sempre acreditei nesta ideia, porém somente após o acidente, que quase tirou minha vida e a possibilidade de velejar é que me engajei na política em defesa de ações que possam contribuir para o esporte nacional”, frisou. Na ocasião, Grael falou da carência do setor e exemplificou que no esporte marítimo, em especial na prática da vela, existe carência de serviços prestados como o da guarda costeira, imprescindível para que o esporte seja praticado com total segurança.

    História de vida

    A paixão pela vela vem de família. A mãe sempre foi a grande incentivadora. Em sua palestra, Grael relembrou sua infância sofrida, quando o pai, militar em conflito com o regime militar, era perseguido e preso, enquanto os irmãos Grael não tinham estrutura para custear o esporte, considerado até hoje de elite. Na esteira do irmão mais velho Torben, Lars entrou em uma escolinha de vela em Brasília, que acabou os levando até os Jogos Escolares Brasileiros.

    Os anos foram passando e quando o irmão Torben comprou um barco, foi morar no Rio de Janeiro e foi campeão mundial Júnior em 1978, Grael se encheu de incentivo e se juntou a ele. Segundo o esportista, a competitividade entre os irmãos demorou a colocá-los no mesmo barco, pois Torben se negava a confiar no caçula. A circunstância tratou de fazê-lo e acabaram iniciando uma eterna parceria que rendeu grandes conquistas. Foram campeões brasileiros velejando juntos na classe snipe em 1980 e 81 e, em 1983, campeões mundiais.

    Em 1984, Torben partiu para um barco de três tripulantes, mas com apenas uma vaga. Lars então explicou as proezas que fez para alcançar seus objetivos. Para estar nas Olimpíadas de 84, em Los Angeles, catequizou um primo até que este se convencesse em investir a herança da família em um barco Tornado, para dois tripulantes. Conseguiram a vaga e a sétima posição nos Jogos. O irmão foi segundo na classe soling.

    No Brasil, a vela só existia de quatro em quatro anos, e o patrocínio também. A superação fez parte da campanha para estar nos Jogos de Seul, em 1988. Foi salvo pela gentileza e grandeza de um industrial húngaro residente no Brasil e apaixonado pela vela. Comovido com suas dificuldades bancou seu barco e sua preparação. Foi um momento ímpar. O pai, doente terminal de câncer, viveu para ver os dois filhos velejando em categorias diferentes, recebendo ambos o bronze olímpico. A Olimpíada de Barcelona, em 1992, foi diferente. Com boa preparação, favoritos pelos desempenhos nos campeonatos mundiais, os irmãos chegaram como parâmetro referencial de excelência e partiram altamente criticados pela ausência de medalhas.

    Torben foi morar na Itália e Lars pensou em parar. Para estar em Atlanta foi obrigado pelos patrocinadores a mudar de barco e perder 14 quilos. Em sua quarta Olimpíada e com menos cobrança, fez parte da seleção brasileira que alcançou o recorde de 15 medalhas. Foi bronze, enquanto o irmão e a revelação Robert Scheidt foram ouro, cada qual em sua respectiva categoria.

    Foi então que em 1997 um novo ciclo se iniciou. Competindo em Vitória, no Espírito Santo, foi atingido por uma lancha desgovernada. O acidente custou-lhe uma amputação da perna direita. O acidente foi integralmente detalhado com naturalidade e bom humor, numa demonstração nítida de grandeza e superação. Foi salvo pelas hábeis mãos de um amigo dentista e um cirurgião vascular que na hora pinçou sua artéria com o dedo. Sobreviveu a duas paradas respiratórias e nove cirurgias. Revolta e motivação se fundiam e geravam um conflito castigante. Teve nos exemplos de heróis anônimos a força para vencer a provação. Gente perseverante lhe serviu de inspiração, inclusive o ídolo João do Pulo, ouro no Panamericano no salto triplo, que lhe deu um telefonema confortador.

    O irmão se mostrou um parceiro ímpar. Comprou-lhe de presente um barco dos anos 30, que ele mesmo coordenou a reforma, e deu-lhe de presente na tentativa de trazê-lo de volta ao mar. Funcionou. Quatro meses depois do acidente venceu o irmão numa regata festiva, com uma pequena ajuda da sorte, e sentiu o prazer de superar.

    Adaptou-se à nova condição e passou a velejar na classe oceano. Em 2000, Torben pediu para treiná-lo para a Olimpíada de Sidney, na classe star. Conquistaram o bronze. Desde então, já venceu o irmão num pré-olímpico, foi campeão sulamericano em 2005, superando Robert Scheidt, a quem considera um fenômeno, e foi conselheiro no barco de Torben durante o Americas Cup 2005. Também foi campeão brasileiro em 2006 e vice em 2007.

    Sua trajetória fantástica como esportista não apaga sua responsabilidade social. Em 1998 deu iniciou ao Projeto Grael, que mais tarde se tornou uma Ocip, a Rumo Náutico, que objetiva democratizar o esporte levando oportunidade a jovens carentes. Foi assim que chegou à vida pública: em 1999 foi diretor de programa especial do Ministério do Esporte e do Turismo e, em 2001, Secretário Nacional de Esporte, ambos no governo de Fernando Henrique Cardoso. Em 2003, foi convidado pelo então governador paulista Geraldo Alckmin para ser Secretário de Estado de Esporte e Lazer.

    Hoje, Lars Grael está mais voltado para seus projetos sociais e continua um velejador extremamente competitivo. Fez de sua vida um exemplo de sucesso e superação e por isso viaja o Brasil dando seu exemplo. “Quando velejamos por uma paixão, uma utopia pode virar um sonho, e o sonho realidade”, (Tatiani Magalhães)

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